mars 29, 2005

A luz penetrava os vãos da veneziana e esparramava-se pelo quarto num indício de que já não era mais tão cedo. Os sons das vozes e os barulhos da casa se misturavam aos seus sonhos confusos, longos e que naquela noite lhe pareceram tão reais. Levantou-se preguiçosamente, como de costume, acostumando os olhos com a claridade. Seu corpo doía anunciando um cansaço prematuro, de uma longa semana que apenas começara. Pensamentos lutavam para entrar em ordem enquanto repetia gestos mecânicos cotidianamente. Lavar o rosto, vestir o que lhe parece apropriado, preparar uma caneca de leite desnatado com chocolate em pó. Lista, agenda, lista número dois, caderno de anotações, tudo pronto. Na mente e na bolsa. Tudo pronto para começar a ser feito, embora ela soubesse que a noite chegaria com a já familiar frustração de tarefas – ainda - não cumpridas. Fazia listas para aliviar a mente, como se colocando no papel as coisas se tornassem mais palpáveis, mais reais. Tornar realidade os planos era seu maior objetivo nos últimos meses.
Conferiu seu reflexo no espelho uma última vez e bateu a porta. No caminho para o trabalho esforçava-se para manter a cabeça erguida. Olhava as pessoas na rua com uma certa inveja de quem desejava aquela certeza. Todos parecem tão objetivos, tão decididos. Decisões sempre foram seu ponto fraco. Atravessou a avenida quase sem olhar para os lados, com uma displicência que não lhe era característica. O sonho da noite anterior insistia em voltar-lhe ao pensamento. Essa era a última coisa da qual precisava. Mais pensamentos. Já existem dúvidas e preocupações o suficiente. Preferia não pensar mais, apenas deixar acontecer. Mergulhada em divagações continuava caminhando em passos firmes e largos, procurando o azul reconfortante do céu. O azul dera lugar ao cinza e hoje nada mais poderia reconfortá-la. Seguiu fitando seus pés, um depois do outro, como se a continuidade do movimento a distraísse e levasse aquele peso embora. Nuvens carregadas anunciam uma chuva que não chega. Não chegar tornou-se lugar comum. Já estava se acostumando com planos perdidos no meio do caminho. Realidades paralelas que nunca aconteceram. Toda vez que olhava pra trás via uma versão de si mesma que nunca existiu. Dobrando a esquina, sentada na calçada de um café colorido, olhando através da janela envidraçada daquele prédio tão bonito. Lá estava ela. Lá, ela não estava. Desistir não estava nos seus planos, ela sabia que um dia a sua versão definitiva tomaria vida. Só não sabia quando. E essa espera era sua maior tortura. Enquanto isso ela segurava a ansiedade e guardava a nostalgia no bolso. Essa vida dita provisória não era ruim na mesma medida em que não lhe era segura. Atravessou a rua, mas as coisas continuavam as mesmas. Queria que os ensaios acabassem. Que alguém lhe avisasse o dia da estréia. Queria ter alguma garantia de que protagonizaria sua vida. Pausa para o retorno. Bem-vinda de volta. O elevador chegou.

Posted by roberta at mars 29, 2005 11:03 AM
Comments

sim, sim... concordo com a Giu. além do que, quanto mais ensaios, maiores as chances de que a estréia aproxime-se cada vez mais da perfeição... texto lindo, dear robs. como todos os teus, aliás. vamos tomar um café hora dessas? beijinho.

Posted by: anaband at mars 30, 2005 11:32 PM

o elevador é movimento. e sobe.

Posted by: giu at mars 30, 2005 01:30 AM