janvier 31, 2006

a cidade

“O homem está na cidade
como uma coisa está em outra
e a cidade está no homem
que está em outra cidade

a cidade está no homem
quase como a árvore voa
no pássaro que a deixa”

Ferreira Gullar


Ha cinco meses essa é a minha cidade. Aqui eu acordo, aqui eu durmo. Aqui sonho, sonhos sem sentido. Pra depois ver o quanto eles se encaixam. E continuo. Essa é a cidade que eu aprendi a amar, com a língua que aprendi a falar, os hábitos que precisei entender e a cultura que sempre quis conhecer.
Entre lá e aqui, sempre vai ter algo faltando. Mas é aqui que procuro me preencher. Caminhar por ruas desconhecidas, sorrir para as crianças no parque, me misturar entre a multidão. Saber informar os turistas na rua. Conhecer a próxima parada do ônibus sem precisar olhar no mapa. Comprar uma baguette na esquina e não me importar que ela não esteja embalada (confesso, uma das adaptações mais difíceis). Reconhecer os prédios no caminho de volta pra casa, e sentir-me em casa. Reclamar como um nativo dos turistas no metrô. Entender a televisão, o que eles dizem e o que eles querem dizer.
E ao mesmo tempo, ser um estrangeiro.
Sentir falta de ser conhecida na rua, de um rápido abano que vem da calçada do outro lado. Saber como vai ser o clima amanhã simplesmente analisando a noite de hoje. E acertar. Ficar em duvida entre qual amigo visitar no final de semana. Sentir falta da família, dos abraços e da rotina testemunhada. Entender a televisão, o que eles dizem e o que querem dizer.
Em português.
Paris é uma cidade como qualquer outra. É apenas mais um lugar. E ao dizer isso eu corro o risco de ser apedrejada, por estar esnobando uma capital do mundo. Mas a verdade é que toda cidade é especial, quando a gente faz dela especial. Aqui eu me descubro crescendo, formando a minha família. E o prazer de caminhar na rua olhando pra cima, pro alto dos prédios, é o mesmo, seja onde for. Deitar na grama e aproveitar o sol. Ler um livro sentado em um café. Andar de mãos dadas, falando sobre a vida, ou sobre nada de muito importante.
Eu ainda estranho quando ando à noite, e vejo minha sombra refletida varias vezes, no chão e nas paredes. Sempre acho que tem alguém atrás de mim e me viro rápido, desconfiada. Pra depois rir sozinha, ao constatar que, de novo, era só eu mesma.
Sim, aqui tem cultura, tem seguro saúde, tem infra-estrutura, tem transporte, tem parques, tem segurança. Mas aqui não tem o que nos é mais familiar, de origem. E será que aqui pode vir a ser, realmente, a nossa casa? E se pode? O que fazer?
Não ofereço respostas, eu continuo me perguntando. E colocando na balança (como típica libriana) todos os pros e os contras. E no final disso, me vejo (como típica libriana), dividida. Seria bom ter tudo, mas ai não tem graça.

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ps. publicado depois de relutar com a idéia de escrever sempre sobre o mesmo assunto. mas é o assunto que eu tenho, oras.

Posted by roberta at janvier 31, 2006 03:22 PM
Comments

te lendo eu percebo que a vida e assim mesmo... como a gente se adapta e cria forças para o novo e ao mesmo tempo fica preso ao que ja e nosso e que talvez seja a ancora que nos prende ao que essencialmente somos. e isso tem a ver com passado, presente e futuro, com as coisas simples e complexas, com o que se tem e o que nao se tem, com o cotidiano, com os sonhos e planos... com tudo e o tempo todo!
o segredo talvez seja saber lidar com isso.

post muito muito legal rob´s.
eu sinto orgulho de ti ;))

Posted by: lulu at février 1, 2006 12:24 PM

vai em frente rob. perguntaeresposta,perguntaeresponde. depois conta para nós. o "se sentir parte de" as vezes é em qualquer lugar, as vezes em nenhum. descobre os cantos, as esconderijos, os saldos, o céu e a dinâmica dos ventos e das sensações (inclusive as térmicas). e perdoa-os pelos baguetes sem papel de embrulho.

ele mesmo já disse uma vez:

como dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
embora o pão seja caro
e a liberdade pequena

Posted by: nisia at février 1, 2006 09:47 AM

eu aqui, joana-urbana, urbanista de profissão e coração, eterna apaixonada pelas cidades, ruas, pessoas.... e também uma estrangeira na cidade onde chamo 'my home', e depois de ter também me descoberto estrangeira na minha cidade natal. bom...enchi os olhos de lágrimas (acho que hoje estou meio emotiva mesmo)...sentindo uma ponta de identificação, outra de uma inveja boa...e ao mesmo tempo me sentindo inteiramente parte, e por isso me sinto um ser de muita sorte...por estar perto...ou me sentir perto. bjos

Posted by: jo at janvier 31, 2006 05:21 PM

Primeiro eu lembrei nós – não faz muito tempo – imaginando teus posts de paris. Lembra? nesse, em especial, tem muito do que falamos que ia ter. e agora eu entendi porque. ( no msn).
Depois lembrei de uma musica, doves: "Some cities crush
Some cities heal, Some cities laugh. While other cities steal…Can't I make you see?" e por fim pensei: e ela me disse que não estava inspirada. Tá-bem!!!!!! Ahh, e não.. não vai ser apedrejada. a gente não deixa. ;)

Posted by: giu at janvier 31, 2006 05:04 PM