e na volta, eu me pergunto se realmente estou pronta pra aceitar novas culturas. talvez seja culpa da midia (sempre é bom culpar a midia) que bombardeia a gente com imagens horriveis vindas do lado de la.
talvez tenha sido o excesso de simpatia do nativo que nos assustou. jantar na casa dele seria demais pra nos.
talvez tenha sido um excesso de preocupação da nossa parte. mas confesso que não é facil atravessar uma cidade repleta de homens que te olham de maneira agressiva e não respeitam nem mesmo a presença do teu marido ao lado.
e por tudo isso e mais algumas que eu me vejo preconceituosa e ao mesmo tempo triste por esse povo, que em uma cidade pobre no meio do deserto é obrigado a ser chato para ganhar uns trocos.
de repente o brasil não nos parece assim tão pobre. bom, o sul ao menos.
foi uma mistura do bom e do ruim que nos fez perceber que nem sempre é facil mergulhar em outra cultura. ou talvez seja um problema nosso.
de qualquer jeito, ca estamos de volta. valorizando ainda mais o que temos e com algumas paisagens incriveis na memoria, para ocupar essa sensação de estranhamento quando lembrarmos da nossa viagem à tunisia.
terceiro dia na tunisia, um local que nos persegue, céu azul e calor como ha muito não vistos, musicas no ipod, protetor solar 30, nenhum banho de piscina, um passeio amanhã, homens de camisa para a conferência, denis na conferência, eu lendo revistas e pensando em nada.
sem relatos, so descanso. e talvez algumas fotos no flickr.
estamos em tozeur, na tunisia.
chegamos em um dia de muito vento e, conseqüentemente, muita areia. tozeur é uma das portas pro deserto do sahara, o qual vamos visitar na quinta-feira. por enquanto ja dei um escândalo achando que estava sendo seqüestrada.
não estava.
o hotel em que estamos pertence ao prefeito da cidade. a gente acha que o hotel é a cidade, de tão grande.
muitas fotos e mais noticias em breve, incluindo o jantar com musica tipica rodeados de japoneses e o taxi cheio de areia.
saudações tunisianas, pq ainda não sei como se fala tchau em arabe.
shalom?
o texto encerra com um conto japonês sobre a iluminação, que vou colocar aqui com as minhas proprias palavras, assim como fez o autor do livro (howard becker):
no fundo do oceano, existe um portal magico, chamado o portal do dragão. esse portal tem o poder de transformar todo peixe que passa por ele em um dragão!
porém, esse portal não é facil de encontrar, pois ele se parece exatamente com todo o resto do oceano. é invisivel.
para encontrar o portal do dragão é preciso achar os peixes que se tranformam em dragões. so que depois de transformados eles continuam com a mesma forma de antes, não existe nada em sua aparência que possa diferencia-los dos peixes normais.
e mais, os peixes que viraram dragões não têm a menor idéia da sua transformação.
eles são dragões, simplesmente o são.
e a ultima frase do livro é:
"você também pode ser um dragão".
howard becker - "les ficelles du métier", ou "tricks of the trade".
fizemos as pazes. eu e meu orientador. porque eu brigo, fico de mal e depois faço as pazes sem que a outra pessoa tenha a menor idéia. como hoje.
cheguei quase meia hora antes, essa repulsa por atrasos acaba me traindo. caminhei um pouco, sentei na parada do ônibus, de onde podia enxergar o relogio na torre da esquina. mais cinco minutos. começou a garoar bem leve quando entrei no prédio.
fui recebida com a politesse habitual. pra não dizer frieza, mas não é hora pra juizo de valores. os dois gatos esperaram junto comigo. um deles, brincando com as minhas botas, me divertiu e me fez sorrir, descontraindo.
e quando eu entrei na sala, ja não estava mais de mal. a conversa foi otima e so fez com que eu esquecesse o motivo da briga. sai de la com dicas de trabalho e um livro assinado. o aperto de mão da despedida foi simpatico e atencioso. talvez eu esteja julgando valores.
mas depois de dois anos, algumas coisas ainda parecem surreais.
a garoa me acompanhou até em casa. a sensação boa também. e junto, o livro que vai ficar como lembrança, mesmo que eu não tenha entendido tudo o que foi escrito...
resolveu sair com aquele blusão azul de gola alta. aquele que não usava ha tempos. e ao se olhar no espelho, lembrou, não lhe caia bem. era a volta do frio em um inicio de março que ainda é inverno. sentiu-se cansada como não queria.
com os olhos maquiados para se reinventar, o caminho no metrô foi incômodo por causa de seu vizinho de banco, invadindo o espaço. a proximidade ja lhe era estranha. sentiu-se européia como não queria.
chegou depois, uns vinte minutos. subiu as escadas, porque o elevador não é confiavel. no quinto andar, recebeu uma nova mensagem. sentiu-se longe como não queria.
leu o livro, releu arquivos, atendeu o telefone. e do alto do quinto andar a chuva deixava traços fininhos na janela, desenhados pelo vento. a intensidade da chuva aumentava junto com a sua vontade de ir embora. sentiu-se sozinha como não queria.
pro meio dia, faltam dez. escreveu o fim do texto e deixou a sala. vai descer as escadas e ir pra casa. pra sentir-se segura, como gostaria.